Existe uma verdade desconfortável que todo médico e todo advogado precisa encarar: o paciente escolhe o médico como escolhe restaurante, pela avaliação. O cliente faz o mesmo com o advogado. Antes de marcar a consulta, antes de ligar para o escritório, a pessoa digita o seu nome no Google e decide, em segundos, se você merece o clique seguinte ou se ela vai para o próximo da lista.
E aqui está o nó que torna isso especialmente cruel para quem é da saúde ou do Direito: o CFM e a OAB limitam o que você pode responder. O dono do restaurante rebate uma avaliação ruim, oferece um cupom, pede review para os clientes felizes. Você, não. Você tem um código de ética vigiando cada palavra. Recebeu uma crítica injusta? Não pode nem revelar que aquela pessoa foi sua paciente. Quer se promover? Existe uma linha tênue entre construir autoridade e cometer uma infração disciplinar.
A boa notícia é: dá para vencer isso dentro das regras. Mas o caminho é diferente do de qualquer outro negócio, e é sobre isso que este texto trata.
A consulta que acontece antes da consulta
Pense no percurso real de um paciente ou cliente hoje. Ele sente uma dor, ou tem um problema jurídico. A primeira coisa que faz não é pedir indicação ao vizinho, é pesquisar. Busca sobre o sintoma ou o direito, busca profissionais, e, quando alguém recomenda o seu nome, o que ele faz? Googla você. Lê as avaliações. Vê o que aparece. Forma uma opinião.
Essa é a primeira consulta, e ela acontece sem você estar presente. É um julgamento silencioso, feito a partir do que o Google, e, cada vez mais, as respostas geradas por IA mostram sobre você. Para profissionais de ticket alto, como médicos e advogados, essa pré-seleção é brutal: a pessoa está prestes a confiar a você a saúde ou um problema grave da vida dela, e a barra de confiança que ela aplica é altíssima. Um único sinal errado nos resultados de busca, e ela nem chega a te conhecer.
O que torna isso mais delicado ainda é que, nesses dois campos, o que aparece no Google costuma ser mais pesado do que em qualquer outro setor. Não é só a nota de um serviço, é reputação profissional, e ela carrega peso de vida.
O que o Google mostra (e como isso capta ou afasta)
Vale entender os elementos que compõem essa primeira impressão, porque cada um pesa de um jeito.
As avaliações são o mais óbvio: notas e comentários no Google, em plataformas de saúde ou em diretórios jurídicos. Uma sequência de avaliações baixas, ou uma crítica dura no topo, afasta antes de qualquer conversa. E, como veremos, responder a elas é justamente onde o código de ética aperta.
Os processos judiciais são um capítulo à parte, e especialmente sensível. Para advogados, o nome aparece associado a processos por natureza da profissão, e portais como Escavador e Jusbrasil expõem isso sem contexto. Para médicos, uma ação por erro médico, mesmo que improcedente ou já arquivada, pode ficar pairando no resultado de busca como uma sombra permanente. O paciente que vê “processo” ao lado do seu nome raramente para para entender o mérito, ele só sente o alerta.
As reclamações, em plataformas de consumidor, em canais dos conselhos, em redes sociais, completam o quadro. Somadas, avaliações, processos e reclamações formam o retrato que decide se a pessoa marca a consulta ou fecha a aba. E o retrato é montado por terceiros, não por você.
O paradoxo ético: suas mãos estão amarradas
Aqui está o que separa a sua situação da de qualquer outro negócio, e por que as soluções de marketing genéricas são perigosas para você.
Na medicina, a Resolução CFM nº 2.336/2023, em vigor desde março de 2024, moderniza e permite muita coisa: presença em redes sociais, conteúdo educativo, divulgação de serviços, até a repostagem de elogios dentro de certas regras. Mas ela mantém travas rígidas. É vedado prometer resultados, agir de forma sensacionalista ou autopromocional, participar de rankings do tipo “melhor médico”, expor pacientes. E, acima de tudo, há o sigilo médico. Isso significa que, diante de uma avaliação injusta, você não pode se defender contando a sua versão, porque revelar detalhes do atendimento, ou mesmo confirmar que aquela pessoa foi sua paciente, é quebra de sigilo. Sua defesa mais natural é, para você, proibida.
No Direito, o Provimento OAB nº 205/2021, plenamente válido em 2026, parte de um princípio que resume tudo: a publicidade deve informar, não captar. O marketing jurídico é permitido, mas apenas em caráter informativo e institucional, com discrição, moderação e sobriedade. É proibido prometer resultados, comparar-se com outros profissionais, divulgar honorários, usar linguagem de captação de clientela ou qualquer coisa que “mercantilize” a advocacia. Ou seja: sair rebatendo avaliações de forma agressiva, ou se promover como um comerciante, não é só deselegante, pode virar um processo disciplinar.
Repare no paradoxo. As ferramentas que um restaurante usa livremente, responder na lata, oferecer desconto, fazer campanha agressiva, caçar reviews são, para você, ou proibidas ou minadas de risco. Você está numa corrida em que os outros correm de tênis e você, de terno e com um manual de etiqueta na mão.
Mas dá para vencer dentro das regras
Agora a parte que muda o jogo: o fato de as suas mãos estarem parcialmente amarradas não significa que você está indefeso. Significa que o seu caminho é outro e, bem trilhado, é até mais poderoso e mais duradouro do que o do restaurante.
Porque o que constrói reputação para médicos e advogados não é propaganda. É autoridade. E autoridade é justamente o que os códigos de ética permitem, quando bem feita: conteúdo educativo que posiciona você como referência na sua especialidade, uma presença digital sóbria e consistente, a construção da sua identidade como entidade reconhecida (inclusive no Painel de Conhecimento e nas fontes que as IAs leem). É o médico que explica bem uma condição, o advogado que esclarece um direito, dentro do tom que a norma exige, virando a escolha natural de quem pesquisa.
E há a outra frente, a defensiva. Quando o que aparece é injusto ou ilícito, uma avaliação comprovadamente falsa, uma difamação, um processo já arquivado que continua te perseguindo, um dado que fere o sigilo, existem caminhos legítimos para remover, desindexar ou corrigir, pelos mecanismos das plataformas, pela LGPD ou pela via judicial. Você não precisa (nem pode) brigar publicamente com quem te avaliou; mas pode, nos bastidores e dentro da lei, agir sobre o que é indevido.
O espaço para vencer existe. Ele só é mais estreito, mais técnico e mais arriscado de percorrer sozinho, porque cada movimento precisa passar pelo filtro do código antes de ir para o Google.
Dois exemplos que ilustram o fio da navalha
Para deixar concreto, imagine duas situações comuns.
Uma médica recebe uma avaliação de uma estrela dizendo que ela “foi fria e não resolveu nada”. A médica sabe que o caso foi complexo, que ela agiu corretamente e que o desfecho fugia do seu controle. O impulso é responder explicando o que aconteceu. Só que ela não pode detalhar o atendimento, ou até confirmar que aquela pessoa foi sua paciente, viola o sigilo médico. A resposta que a inocentaria é, para ela, proibida. O que existe é um caminho estreito e correto de resposta institucional, além da avaliação de remover a crítica caso ela configure algo ilícito. Saber exatamente onde fica essa linha é a diferença entre se defender e se incriminar.
Um advogado vê o próprio nome, ao ser pesquisado, puxar uma lista de processos nos portais jurídicos, muitos deles simplesmente causas que ele patrocinou, sem nada de desabonador, mas que, sem contexto, assustam o cliente em potencial. O impulso é publicar um post agressivo se promovendo como “o melhor da área” para compensar. Só que promessa, comparação e linguagem de captação são vedadas pela OAB. A saída legítima combina desindexação do que é indevido com construção de autoridade sóbria, nunca a autopromoção que renderia um processo disciplinar.
Nos dois casos, o caminho certo existe. E, nos dois, o caminho errado é exatamente o que o instinto manda fazer.
Por que isso é, necessariamente, trabalho de agência qualificada
E é exatamente por causa desse filtro que aqui o “faça você mesmo”, ou pior, o “contrate uma agência de marketing comum”, é um risco de verdade.
Uma agência de marketing genérica sabe do Google, mas não sabe do CFM nem da OAB. E o desconhecimento custa caro nesses dois mundos. Um post prometendo resultado, uma comparação com concorrentes, uma foto de paciente sem o devido cuidado, uma resposta a uma avaliação que deixa escapar que a pessoa foi atendida, uma linguagem de captação, qualquer um desses passos, que uma agência comum daria sem pestanejar, pode render a você um processo ético-disciplinar. Você contrataria alguém para melhorar a sua imagem e ganharia uma investigação no seu conselho. É o pior dos dois mundos.
Por outro lado, uma agência de reputação que não entende de Google resolve pela metade. O que a sua situação exige é uma dupla competência: quem domine, ao mesmo tempo, a mecânica da busca e da reputação digital e os limites do seu código de ética. Alguém que saiba o que pode ser removido pela via legal, o que pode ser construído dentro da sobriedade exigida, como responder a uma avaliação sem tocar no sigilo, como transformar autoridade em captação legítima sem cruzar a linha da “mercantilização”.
Some a isso a camada nova da inteligência artificial. A própria Resolução CFM nº 2.454/2026 deixa claro que o médico responde pelo conteúdo publicado em seu nome, independentemente de como foi produzido, inclusive por IA. Ou seja: delegar sua presença digital a quem não conhece as regras não transfere a responsabilidade. Ela continua sendo sua, e o conselho vai cobrar de você.
Uma agência qualificada para esse nicho faz o diagnóstico do que o Google e as IAs mostram sobre você hoje, identifica o que é injusto ou ilícito e aciona os caminhos certos para corrigir, constrói autoridade dentro do que o CFM e a OAB permitem, orienta respostas e presença de forma ética, e monitora tudo continuamente, com a consciência de que, no seu caso, uma estratégia errada não custa só dinheiro: custa a sua inscrição profissional e a confiança que levou anos para construir.
A primeira impressão é decidida sem você. Menos a estratégia por trás dela.
O paciente e o cliente vão continuar te julgando pelo que o Google mostra antes de te conhecer. Isso não vai mudar, só tende a se intensificar, agora com as IAs resumindo a sua reputação em um parágrafo antes de qualquer clique. O que você pode escolher é se essa primeira impressão será deixada ao acaso, montada por avaliações soltas e processos sem contexto, ou se será resultado de uma estratégia construída com cuidado.
A resposta curta para “dá para cuidar da minha reputação sem infringir o código?” é: sim, mas exige que conheça, ao mesmo tempo, o Google e o seu conselho. A Autoridade se constrói dentro das regras. Conteúdo injusto se remove pelos caminhos legítimos. E a linha entre vencer e ser punido é fina demais para ser percorrida no improviso.
Se você é médico ou advogado e quer entender o que aparece sobre você antes da primeira consulta, e o que dá para fazer a respeito, dentro das regras da sua profissão, entre em contato para agendarmos uma avaliação. A gente mapeia a sua reputação digital, identifica riscos e oportunidades e conduz a estratégia do começo ao fim, respeitando os limites do CFM e da OAB.
Este conteúdo é informativo e não substitui orientação jurídica ou de conformidade individualizada. As resoluções do CFM e os provimentos da OAB possuem regras específicas e podem ser atualizados; cada caso deve ser avaliado individualmente.
